Era manhã cedo, bem cedo. Mal tinha conseguido dormir naquela noite, tinha passado a noite toda às voltas na cama e com o pensamento só numa coisa. O Sol espreitava tímido por entre um céu nublado, mas nada de chuva, era a esperança que reinava dentro de si. Apesar do ar fresco que se fazia sentir, ele tinha calor, tinha um calor dentro dele e fez aquele caminho até à estação como se fosse Verão. À estação chegou cedo, muito antes da hora marcada para o comboio, ansioso não ficou sentado à espera como faziam todas as outras pessoas à sua volta. Ao contrário disso fez em passadas lentas aquela estação duma ponta a outra, vezes e vezes sem conta. Não conseguia estar parado por um momento que fosse. Olhava o relógio quase de minuto a minuto, o tempo parecia que não queria passar e o raio do comboio que nunca mais chegava, como se fosse possível chegar antes da hora marcada…
No ar surgiu uma voz que anunciou o tal comboio, então sorriu, cada minuto que passava era menos um minuto que faltava. Entrou no comboio e viu que o seu lugar estava ocupado, nem ligou, sentou-se no primeiro lugar vago à janela que encontrou. Tirou o casaco, não aguentava mais aquele calor que trazia consigo e que o fazia transpirar de anseio. Só depois de finalmente se sentar definitivamente relaxou, esticou as pernas para a frente e com a música que trazia aos ouvidos deixou-se embalar pelos carris. E ali foi, de olhos postos lá fora mas com o pensamento já no destino. Lá fora imagens do rio, das árvores, de estações desconhecidas, de sítios e lugares que nunca imaginara sequer. Todos eles lhe pareceram bonitos aos seus olhos, deslumbrantes, e talvez apenas porque faziam parte do caminho para onde queria ir. À medida que se aproximava, o frio era maior, o céu encobria-se mas nem assim ele perdia a esperança, pelo contrário, os olhos brilhavam e ainda hoje tem a certeza que trazia um sorriso na cara. Vestiu o casaco e esticou um pouco mais os músculos.

A viagem que ao inicio lhe parecera não ter fim estava agora a chegar ao seu termo. Ouviu outra voz a anunciar a sua estação, apesar de nem saber como ela era. Deixou sair toda a gente, apertou bem o casaco até ao pescoço, pôs as mãos nos bolsos e saiu, desceu as escadas e colocou os pés no chão. Parou, olhou à sua volta e respirou fundo…
Com aquilo tudo nem reparou que chovia. Ficou por momentos ali a observar, a respirar aquele ar e logo naquele momento percebeu que ali ia ser feliz.

Durante todo o dia passeou por ruas e caminhos desconhecidos. Conheceu coisas que não sabia existirem, andou e andou e apesar dos quilómetros que fez nunca sentiu uma ponta de cansaço. Não era dia para isso, havia coisas bem mais importantes para sentir, para viver.
Até que chegou o momento por que tanto ansiava, era já ali ao virar aquela última curva. Durante o dia esqueceu-se por momentos do nervosismo, mas naquele momento o coração batia mais forte, apesar do frio que fazia as suas mãos suavam, passou um milhão de vezes pela sua cabeça tudo o que iria dizer. Já tinha vivido aquele momento centenas de vezes na sua cabeça. Mas agora é que era a valer, ela estava ali ao fundo da rua, reconheceu-a mesmo sem ainda conseguir ver os seus traços. Era definitivamente ela, o seu jeito, o cabelo, era ela… e estava linda, claro. Ela atravessou a rua para o seu lado ainda ele vinha longe. E nessa altura ele gelou, teve um bloqueio, esqueceu tudo o que tinha planeado dizer e fazer. O coração batia agora que nem um cavalo a galopar, as suas mãos escorriam já suor. Aproximou-se dela e sorriram os dois, e todo o nervosismo e anseio como que desapareceram, desvaneceram-se no ar e transformaram-se em calma e felicidade. Os beijos que trocaram, o meio abraço que deram, fizeram-no ficar quieto cá por fora, mas por dentro dava pulos que nem uma criança. Era por aquele momento que esperou tanto tempo.
E caminharam os dois e falaram de tudo e de nada, de coisas banais e de coisas muito importantes ao mesmo tempo. Riram, sorriram, partilharam a cumplicidade que sabem que têm, contaram histórias, pequenos episódios desconhecidos um do outro, pequenas vitórias que tanto desejavam partilhar um com o outro. E ali sentados naquele sítio com a imagem pura da serra como pano de fundo, o tempo foi passando mas eles não deram por ele passar.

Até que era hora não de se despedirem ainda, mas pelo menos de saírem dali. Caminharam de novo juntos, ele com uma vontade enorme de lhe dar a mão, mas sem coragem para o fazer. Despediram-se apenas por momentos mas ele sentiu que iria ser a última vez que se despediam nesse dia, e então teve vontade de abraçar, de lhe dizer ao ouvido tudo o que tinha para lhe dizer. Não conseguiu, não teve coragem… ainda hoje não sabe se fez bem ou mal.
Ela entrou, ele foi-se sentar. Era o momento dela agora brilhar a grande altura. Ele sentado esperava pela entrada dela e ela lá apareceu, trazia o brilho de uma estrela consigo ele conseguia vê-lo. E sorria, um sorriso sincero, sentido, de orgulho, de alegria, de esperança. E por longos minutos ela espalhou magia, ele apreciou cada instante, vibrou, sofreu, saltou, aplaudiu.
No momento de pausa ela veio falar com ele. Ele voltou a sorrir, perceberam ali que não iam ter hipótese de se despedir melhor. Ele voltou a pensar que queria tanto aquele abraço…
Ela continuou a espalhar magia, ele continuou a vibrar, a aplaudir até que chegou o momento da despedida ao longe. No momento em que ele se levantou nunca pensou que ela sequer olhasse para ele. Mas a cumplicidade é tanta que parecia telepatia, no instante em que ele se levantou ela olhou-o com um olhar triste como que dizendo adeus, como que lhe dando o abraço que ele tanto desejava. E ele sentiu-o, apertou-a então com força e sussurrou-lhe ao ouvido: “Anda, dá-me a mão e anda comigo!”, apesar de saber que tal era impossível.
Depois de sair voltou ainda algumas vezes atrás e apesar de pensar que ela não reparou, veio mais tarde a saber que em todas elas, ela sentiu-o e olhou-o ao longe.
Apressou-se então de novo para a estação, aquele lugar que já lhe era tão familiar, mas de noite parecia-lhe mais escuro, mais negro… seria talvez por estar entre a alegria e a tristeza. Nem sabia bem o que sentir. Por um lado era o homem mais feliz do mundo, por outro a saudade que levava consigo deixava-o de coração bem apertado.
Sentou-se no comboio e apenas agora sentiu o cansaço do dia. Ela ligou-lhe durante a viagem e apesar de não lho dizer, ele sentia a saudade na sua voz, a tristeza da partida… E então, depois de desligar ele chorou… lágrimas de saudade escorreram-lhe pela cara à medida que se ia afastando do sítio onde é tão feliz. As pessoas sentadas nos lugares à sua volta olhavam-no, julgo que algumas delas chegaram mesmo a perceber porque chorava ele.
A viagem de regresso foi assim, triste, silenciosa e nem a música que trazia nos ouvidos fez mudar isso.
Chegado ao lugar que tão bem conhece, saiu do comboio e ao pousar os pés no chão daquela estação, uma certeza se apoderou dele. “Sei que estou de volta, mas o meu coração, esse ficou lá bem longe. Guarda-o bem, que um dia destes voltarei aí para ir ter com ele”.